2013-01-16 - 07:50:00 - OOBSERVADOR

A corrupção no Brasil: Uma endemia?- Por Edilson Lôbo

Certamente, a corrupção no Brasil, tem múltiplas razões.

O que motivou escrever este texto, foi a experiência vivenciada recentemente, por ocasião da minha estada em Brasília.
A primeira (e isso já me ocorreu em outras passagens), quando fui pagar uma refeição e solicitei a nota fiscal para comprovar os meus gastos. Logo a pessoa que me atendeu foi perguntando se eu queria majorar o valor do que havia consumido. A segunda, foi ao efetuar o pagamento para o taxista que me levou ao aeroporto, quando novamente se repetiu a mesma proposta de majorar o preço no recibo, pela corrida efetuada. Óbvio que nas duas ocasiões refutei de pronto, propostas tão descabidas, ainda mais que tinha acabado de participar de um evento no qual, um dos temas, tratou da corrupção e a necessidade de sermos intransigentes no seu combate.

Estas duas situações num curto espaço de tempo, pode nos levar à seguinte reflexão: porque a corrupção brasileira está tão enraizada e disseminada no âmago da sociedade brasileira?

Certamente, a corrupção no Brasil, tem múltiplas razões. A depender do enfoque, vamos perceber que ela se reveste das mais variadas formas e dimensões. Ela é um fenômeno multifacetado. Encontra ambiente que fertiliza os seus tentáculos e potencializa ações, nos meandros das estruturas econômicas, políticas e sociais.

Sem dúvida alguma a desestruturação dessas três esferas, abre caminho para o ilícito, para o que não é ético, para a subtração ilegal do alheio, principalmente o que está no âmbito do espaço público.

Muito embora veja pertinência em atribuir aos aspectos acima, condicionantes para a corrupção no Brasil, podemos apontar outros elementos relevantes para justificar suas raízes em nosso País, a cultura e a educação.

Somos a síntese dos renegados europeus, dos subjugados e ultrajados filhos da mama África e dos indefesos índios que cedo, na sua maioria, perdeu a identidade. Temos a corrupção como marca de uma cultura.

Esta sem dúvida é uma herança que marcou o perfil sociocultural do nosso povo. Começamos muito mal. O Brasil forjou a sua história, trilhada por exemplos dados pelos “filhos da Pátria”, nada edificantes.

Ao longo dos séculos, do período colonial aos dias atuais, só vimos crescer, sedimentar-se e aprofundar-se, o processo de corrupção na vida cotidiana brasileira. Algo que foge ao controle, viceja e prolifera como erva daninha. Algo estarrecedor. Essa praga que penetra em todo tecido da sociedade brasileira, não poupa classes, estruturas de poder, partidos políticos, o público ou o privado. Já se constituiu num estado endêmico, algo patológico que é engendrado já no berço familiar.

A coisa começa mais ou menos assim: nas famílias de poder aquisitivo mais baixo. Se você passar de ano (os pais tentando comprar os filhos, já nos primeiros anos de aprendizado), compraremos aquela bola que prometemos ou a boneca que tanto a filha deseja. Como se estudar e tirar boas notas, não fosse uma tarefa a ser encarada como um dever e de forma responsável pelos filhos. Nas famílias mais abastadas, o nível do mimo se torna mais elevado. Quando se trata de vencer a etapa do vestibular a recompensa é mais generosa, pode chegar ao automóvel do ano ou a tão sonhada viagem para o exterior. São exemplos emblemáticos, apenas para reforçar o quanto os pais , sem o saber, vão estimulando os filhos numa prática que pode vir a ser totalmente distorcida no futuro. A situação é mais grave ainda, quando vivenciamos ensinamentos do tipo, não seja tolo(a), a vida é dos mais espertos. Que belos exemplos de educação, são passados para os filhos.

No convívio social e no mundo do trabalho, os pequenos assédios e práticas pouco recomendáveis também prevalecem. Os dois exemplos mencionados conformam-nos. Quem já não presenciou alguém tentando furar a fila ou mesmo já não se tornou protagonista dessa prática ou de outras, tentando levar vantagem de determinadas situações, quando o que deve prevalecer é a situação de justiça e igualdade para todos?

Quem ainda não tentou empurrar seu processo na frente de outros, achando que a sua prioridade é maior que a de todo mundo?
Quem não vive criticando a postura infame dos políticos, e na primeira oportunidade vai solicitar benesses para si e seus familiares, contradizendo o seu discurso?

Exemplos de pequenos desvios de conduta praticado no dia a dia por toda a população, pululam à profusão, em todos os níveis e em todas as áreas.

Quem já não presenciou no âmbito do seu trabalho, colegas usarem de práticas das mais vis para galgar determinados espaços de direção? Bajulam os superiores, prejudicam os amigos sem medir qualquer consequência, perdem a dignidade por tão pouco.
A mesma imprensa ou profissionais da mídia que fazem denuncias ou criticam o que acontece de anômalo no sistema, são os mesmos que fustigam situações para daí tirarem vantagens e auferir ganhos desse mesmo sistema.

Estes micros exemplos, numa escala ampliada, nos proporcionam elementos para termos uma ideia do que acontece no universo macro. É como se ela funcionasse num sistema de rede, tal é a voracidade e intensidade com que os escândalos são denunciados, descobertos e são dados a conhecer, por todo o território nacional.

Escândalos do Cachoeira, do mensalão no Congresso Nacional, no governo de Minas e tantos outros, nos dão essa medida.
Em porto Velho o que presenciamos na Assembleia Legislativa, nos precatórios do Judiciário e na prefeitura, são provas irrefutáveis de como funciona essa engrenagem, com mal feitores impregnados em todas as hostes do poder.

Qual a melhor forma de combater essa praga? Uma fiscalização mais eficiente que iniba a ação dos operadores da corrupção? A prisão e o confisco dos bens de quem rouba e desvia recursos públicos? Uma justiça mais ágil? Eleger políticos mais honestos e comprometido com as questões mais sociais? Estender a pena para os agentes corruptores? Sim, porque os grandes desvios de recursos dos cofres públicos para investimentos em grandes obras, para fazer caixa dois para os políticos serem eleitos, para obtenção de substanciais verbas para investimento privado, são engendrados pelas elites econômicas, sejam elas do setor bancário, industrial, comércio e serviços e do agronegócio. Sempre com o beneplácito das elites políticas. É o privado se apropriando do que é publico.

Certamente, são todas medidas inibidoras e eficazes de combate a corrupção. Entretanto, a situação a que se chegou no Brasil, requer algo mais radical. A banalização com que a sociedade a trata, é de causar espécie. Convivemos tranquilamente com a cultura do cinismo em que se rouba mas faz. Do levar vantagem em tudo, não importando os meios...

Não tem que roubar não. Quem assume um cargo público o faz sabendo da responsabilidade que o cargo exige. É dever e obrigação, primar pelo emprego correto e racional do dinheiro e da máquina pública em benefício da coletividade e não dos seus interesses o do seu grupo.

Só um mudança de mentalidade irá modificar esse pensamento enviesado e essas práticas nefastas ao erário e a sociedade. Não é tarefa para essas gerações próximas. Algo que passa por uma tomada de consciência. Consciência do papel que cada cidadão exerce na sociedade e, ao ser guindado ao poder, não veja aí uma oportunidade para dilapidar ou ajudar a dilapidar um patrimônio que é de todos, em benefício de quem menos necessita, as elites de dominação.

A saída está na educação. Na formação de uma cultura comprometida com o bem comum. Isto é possível investindo num modelo de ensino e aprendizagem que valorize a ética, os valores mais essenciais da conduta humana, como honestidade, verdade, justiça e solidariedade. Incutir na criança desde a sua mais tenra idade a noção de retidão de caráter, dignidade, respeito ao que é do outro o que não é seu. Como antigamente diziam nossos pais. Não se aproprie do que é alheio. Isso é feio. Não traga nada do que não é seu para casa. Ai de quem ousasse... Estavam passando uma noção sólida de honestidade de ética. Assim eram forjados os valores.

Muito temos que caminhar para que noções como estas vivifiquem, sejam tomadas como lições do cotidiano e enraíze na formação de cada brasileiro(a). Desta forma estaremos criando os alicerces para uma sociedade, com outra mentalidade, focada na prática saudável do fazer a coisa certa. Nesta perspectiva, poderemos acreditar na possibilidade que dias melhores podem ser vislumbrados no horizonte...

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